terça-feira, 19 de junho de 2018

Reconstruindo o clima do passado


          A reconstrução paleoclimática começou, como muitos outros campos, de modo qualitativo. Muitos testemunhos climáticos são os valores medidos de aspectos dos sedimentos de lagos, sedimentos oceânicos, ou núcleos de gelo coletados de locais-chave de todo o mundo. A interpretação desses substitutos, no entanto, geralmente é qualitativa. Exemplos de reconstruções (Shuman 2006) incluem inferências como:

 • Temperaturas obtidas a partir de núcleos de sedimentos de lagos, uma vez que a quantidade de matéria orgânica ou sílica biogênica produzida por diatomáceas representa mudanças na produtividade aquática, fenômeno regido pela temperatura; 

• Temperaturas obtidas a partir de registros de pólens fósseis de mudança da vegetação, com base em suposições sobre os controles na distribuição de plantas; 

• Temperatura e umidade com base em valores isotópicos de gelo, sedimentos de lagos e fósseis marinhos que estão intimamente ligados aos efeitos de fracionamento isotópico dependentes da temperatura e da evaporação; 

• Umidade baseada na concentração de macrofósseis de plantas aquáticas, tamanho dos grãos de sedimentos e 
descontinuidades em núcleos de sedimentos de lagos representam mudanças no nível de água do lago;

 • Umidade baseada nas características dos sedimentos oceânicos representa mudanças na vazão de rios; 

• Velocidade, direção do vento e gradientes de pressão atmosférica, com base em mudanças na composição sedimentos lacustres e oceânicos indicam influências por poeira terrestres, ressurgência oceânica e outros fenômenos impelidos pelo vento;

 • Velocidade, direção do vento e gradientes de pressão atmosférica, com base em mudanças na química elementar e isotópica de núcleos de gelo que são controladas pela deposição de poeira e sais marinhos trazidos pelos ventos;

 • Frequências de eventos de tempestade com base em camadas de sedimentos grosseiros depositados em lagos, lagoas costeiras, restingas e manguezais representam sedimentos depositados durante as cheias.
 Imagem relacionada
imagem retirada : http://rusoares65.pbworks.com/w/page/4305378/Gloss%C3%A1rio%20-%20Glaciares


As reconstruções paleoclimáticas qualitativas são limitadas devido ao fato de não registrarem a magnitude absoluta das mudanças passadas da temperatura ou precipitação. Interpretações inadequadas podem surgir caso a resposta dos testemunhos não seja calibrada aos seus fatores determinantes. Muitos testemunhos se comportam de maneira complexa e podem ter controles múltiplos. Quantificar  com medições calibradas de fenômenos biológicos, geoquímicos e geofísicos (por exemplo, as larguras de anéis de árvores, valores isotópicos de gelo glacial e temperaturas obtidas em sondagens profundas) tem uma interpretação em benefício de estabelecer uma relação entre os testemunhos e os fatores que o controlam. Basicamente, Shuman (2006) destaca quatro tipos de reconstruções paleoclimáticas quantitativas:

 • Medições de anéis de árvores têm oferecido uma ferramenta amplamente útil para quantificar as condições do passado, pois o crescimento dos anéis em árvores é geralmente regulado pelo clima. Relações locais entre as condições passadas do clima e do crescimento podem ser calibradas e verificadas utilizando a sobreposição entre os padrões atuais de crescimento com medições do clima na mesma região;

 • Condições paleoclimáticas têm sido inferidas a partir de concentrações de micro e macro fósseis de organismos preservados nos sedimentos de oceanos, lagos, pântanos e solos por meio da quantificação das relações espaciais modernas entre a biota e o clima, e em seguida, assume-se que as mesmas relações regularam mudanças biológicas no passado
;
                                                  imagem retirada: http://collectionfossilis.blogspot.com/

 • Registros geoquímicos também fornecem dados quantitativos do clima, uma vez que a temperatura influencia a abundância relativa entre isótopos pesados e leves de oxigênio e hidrogênio. Técnicas geoquímicas modernas incluem a reconstrução de temperaturas da água ou níveis de salinidade utilizando razões elementares (por exemplo, magnésio/cálcio - Mg/Ca) em minerais sedimentares, e usando geoquímica orgânica; 

 • Medições físicas de temperatura a partir de poços profundos em rocha e gelo produziram estimativas quantitativas de temperaturas de superfície com base na física de fluxo de calor. 




  Principais fontes de testemunhos Geológicos em reconstruções paleoclimáticas
















Geológico






Marinho (núcleos de sedimentos oceânicos)


Sedimentos biogênicos (fósseis planctônicos e bentônicos)
Composição isotópica de oxigênio

Abundância de fauna e flora

Variações morfológicas

Alquenonas (a partir de diatomáceas)

Sedimentos inorgânicos

Poeira terrestre (eólica) e morenas

Mineralogia da argila







Terrestre

Depósitos e características de erosão glacial

Características periglaciais

Depósitos eólicos (loesse e dunas de areia)

Sedimentos lacustres e feições erosivas (costas)

Feições pedológicas (paleossolos)

Espeleotemas (idade e composição dos isótopos estáveis)

Linhas costeiras (características eustáticas e glácio-eustáticas)




Fonte:  Oliveira M.J., Baptista G.M.M., Carneiro C.D.R., Vecchia F.A.S. 2015. História geológica e Ciência do clima: Métodos e origens do estudo dos ciclos climáticos na Terra. Terræ, 12(1):03- 26. - http://www.ige.unicamp. br/terrae




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